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Não é todo dia que temos à nossa frente um dos maiores pensadores econômicos do país para analisar as perspectivas relativas à economia brasileira. Pois, no dia 26 de novembro, no encontro “Visão Mais Perto”, os participantes dos nossos planos puderam ouvir, ao vivo, as análises do economista Maílson da Nóbrega.
Atual sócio da Tendências Consultoria, Maílson foi ministro da Fazenda de 1988 a 1990, após uma longa carreira no Banco do Brasil e no setor público, e é autor de seis livros considerados referências fundamentais para quem quer saber mais sobre economia e finanças. Na palestra para os participantes da Visão Prev, ele falou sobre os principais desafios para o país, nossas vantagens competitivas e o cenário ainda indefinido para as eleições de 2026, quando vamos escolher o novo presidente, além de governadores, senadores e deputados federais e estaduais.
Acompanhe, a seguir, os destaques da apresentação exclusiva feita por Maílson:
Três desafios
1. A guerra tarifária imposta pelos Estados Unidos
“Após a II Guerra Mundial, o então GATT (Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio), que é hoje a Organização Mundial do Comércio, estabeleceu princípios para regular as negociações entre os países que são válidos até hoje com o objetivo de reduzir barreiras protecionistas e promover o livre-comércio entre os países signatários. As recentes alterações de tarifas impostas pelo governo norte-americano ferem essas regras e outros acordos entre nações. Ou seja, essas decisões podem desorganizar a cadeia global de suprimentos que é um dos maiores motores da prosperidade mundial. Seus efeitos inflacionários, porém, já se manifestam na economia dos Estados Unidos, o que deve levar o governo a rever essas definições para evitar maiores repercussões sobre sua popularidade.”
2. A situação fiscal
“Nossa situação fiscal é insustentável. Isso é um processo que começou com a Constituição de 1988, quando os parlamentares decidiram atacar a pobreza e a desigualdade através do gasto público. Para se ter uma ideia, em 2025, seis itens representam 96% das despesas primárias da União: Previdência Social, pessoal, educação, saúde, gastos sociais e investimentos. A rigidez orçamentária não tem paralelo no planeta. O governo federal dispõe apenas de 4% do orçamento para financiar programas essenciais de ciência, tecnologia e cultura, por exemplo, quando nos demais países emergentes, essa média é de 50%. O resultado é que, em 2028, a dívida pública pode chegar a 90% do PIB, sendo que a média dos países emergentes é de 57% do PIB, segundo o FMI. A única saída para essa situação é realizar reformas profundas para rever os gastos obrigatórios. O problema é que muitas dessas reformas não serão bem recebidas pelos diferentes setores da sociedade. Será necessário, então, um esforço de comunicação e esclarecimento para que se entenda a urgência dessas mudanças e isso só poderá ser levado adiante por uma liderança seriamente comprometida com essa revisão estrutural.”
3. Baixa produtividade
“O crescimento de uma nação é diretamente proporcional ao aumento da produtividade nos diferentes setores da economia. A produtividade é o principal fator de geração de riqueza de um país e seu elemento essencial é a inovação que faz com que se consiga produzir mais de forma mais barata e eficiente. O fato é que, nos últimos 40 anos, a produtividade no Brasil está praticamente estagnada, com exceção da agropecuária. Uma boa notícia é a Reforma Tributária do Consumo que, a partir de 2026, será um fator extremamente positivo para promover ganhos de produtividade, uma vez que seu intuito é simplificar o complexo sistema de impostos do país por meio de um conjunto de mudanças muito relevantes. Nesse gráfico, vemos um comparativo do aumento real do PIB brasileiro em relação ao norte-americano. Nosso crescimento acumulado é bem menor e, se quisermos nos tornar um país próspero, precisamos investir maciçamente na expansão da produtividade de nossa economia, em todos os setores, sem exceção.”
Fatores favoráveis ao crescimento
1. Agronegócio e setor mineral competitivos
“Sobretudo em função desses dois setores, o Brasil se tornou estruturalmente superavitário na balança comercial em uma construção de valor que já soma mais de 20 anos.”
2. Competitividade no ambiente de powershoring
“O powershoring diz respeito à realocação de atividades industriais para países com energia abundante, barata e limpa. O Brasil tem alta competitividade nesse quesito, porque preenche com muita vantagem duas das três condições necessárias, ao oferecer energia limpa e renovável (hidroelétrica, solar e fotovoltaica, por exemplo).”
3. Superação de vulnerabilidades do passado
“Nos últimos quase 100 anos, as crises no Brasil tiveram basicamente duas causas: problemas no setor bancário ou no pagamento da dívida externa. Hoje, ao contrário, temos contas externas saudáveis, com o Brasil sendo um credor internacional líquido, e um sistema financeiro sólido, sofisticado e bem capitalizado.”
4. Qualidade acadêmica
“Sete das dez melhores universidades da América Latina estão no Brasil. Essa qualidade é fundamental para preparar nossos dirigentes no governo e no setor privado.”
5. Empresas de classe mundial
“Temos hoje diversas empresas brasileiras com presença global, bem geridas, com pessoal qualificado e competente. Algumas já faturam mais no exterior do que no Brasil.”
6. Resiliência no campo institucional
“Nesse aspecto, ainda que tenhamos muitas oportunidades de melhoria, contamos com uma democracia consolidada, judiciário autônomo, combate à corrupção, imprensa livre e Banco Central independente, entre outros fatores que pesam muito para o fortalecimento do país.”
Eleições de 2026
“Apesar de já vermos diversas movimentações no cenário político, o fato é que não temos nenhuma candidatura oficial. Ainda vamos acompanhar o surgimento dos nomes e alianças para os diversos cargos disputados, com maior destaque, é claro, para a disputa presidencial. Seja qual for o eleito, os temas abordados anteriormente são, sem dúvida, os maiores desafios e oportunidades para colocar o Brasil em uma posição mais favorável no panorama internacional.”
Em 2023, nosso blog publicou uma entrevista exclusiva com Maílson da Nóbrega. Clique aqui. para reler essa matéria.