Visão de Vida

Por que estamos tão cansados?

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É quase impossível passar uma semana sem ouvir alguém dizer que está muito cansado, exausto, às portas de um esgotamento mental. Isso quando essa pessoa não é você mesmo!

 

Mas ainda estamos no começo do ano? Do mês? Do dia? Pois é, essa sensação não está relacionada ao calendário ou ao relógio. Se você costuma acordar sentindo que, mesmo após oito horas de sono, sua manhã já começa com a energia baixa, saiba que não está sozinho. Esse estado de desgaste pode aparecer a qualquer momento e está ligado a uma questão muito mais profunda: estamos exaustos devido à combinação de sobrecarga mental, uso excessivo de tecnologia e alta pressão por produtividade.

 

Em seu livro “Sociedade do Cansaço”, um sucesso mundial de vendas, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han estuda as questões que nos levam a esse estado. Para ele, estamos hoje sujeitos a uma enorme pressão interna, fruto de vivermos na era do desempenho, que nos coloca em um nível muito elevado de autoexigência. Temos que ler tudo, ver tudo, ouvir tudo, saber de tudo, comentar tudo.

Como chegamos aqui

Para Han, o cansaço atual não é aquele que nos faz dormir bem após um dia intenso, mas sim “um cansaço que isola e queima por dentro”. O que o autor identifica como a onda de positividade excessiva do “eu consigo” (herdada do termo inglês “yes, we can”) tem gerado um aumento significativo de doenças como depressão, transtornos de personalidade, problemas de memória, nevoeiro mental, hiperatividade e burnout. Segundo a International Stress Management Association, o Brasil é o segundo país com os maiores níveis de estresse do mundo, perdendo apenas para o Japão. Além disso, cerca de 30% dos trabalhadores brasileiros sofrem com a Síndrome de Burnout, de acordo com dados da Associação Nacional de Medicina do Trabalho.

 

A esse estado mental desfavorável estão também associadas consequências físicas como doenças cardiovasculares (o estresse crônico é um dos principais fatores de risco para hipertensão e infarto), comprometimento imunológico (o excesso de cortisol, o chamado hormônio do estresse, “desliga” partes do sistema imune) e distúrbios digestivos (como gastrite nervosa, síndrome do intestino irritável e refluxo).

Junção de fatores

A sensação de exaustão coletiva acontece porque estamos lidando com uma “tempestade perfeita” de fatores físicos, mentais e sociais. De acordo com pesquisadores do tema, as principais razões são:

Hiperestimulação

  • Sobrecarga de informação: O cérebro humano não consegue administrar o volume de dados e a velocidade das redes sociais, o que gera ansiedade e um estado de fadiga mental.
  • Luz azul e sono: O hábito de usar o celular antes de dormir interfere na produção de melatonina, resultando em um sono de baixa qualidade.

Estilo de vida

  • Multitarefa: Tentar resolver várias pendências simultaneamente (como responder mensagens enquanto avalia um projeto) gera uma falsa sensação de produtividade que esgota o cérebro.
  • Sedentarismo e alimentação desbalanceada: A falta de movimento e dietas pobres em nutrientes fundamentais, como ferro e vitaminas do complexo B, são causas diretas de fadiga.
  • Pressão social: A cultura do desempenho e a constante comparação com os outros nas redes sociais contribuem para a estafa emocional.

Isso sem falar em causas físicas que podem ser diagnosticadas por um check-up médico. Entre elas, podem estar problemas na tireoide, apneia do sono, anemia e diabetes.

E agora, o que fazer?

Para virar o jogo contra a exaustão, o segredo não é “fazer mais”, mas priorizar melhor. A seguir, você encontra dez estratégias práticas baseadas em orientações de especialistas em saúde e produtividade:

1. Higiene do sono:

Estabeleça um horário fixo para dormir e acordar. Segundo a Associação Brasileira do Sono, desligar telas uma hora antes de deitar é vital para que o cérebro produza melatonina e você atinja o sono profundo.

2. Movimento estratégico:

Pode parecer contraditório, mas gastar energia gera energia. Exercícios leves, como uma caminhada de 20 minutos, combatem o sedentarismo e melhoram a circulação de oxigênio. A atividade física estimula a liberação de diversos hormônios, como a endorfina e a serotonina, que melhoram o humor. 

3. Check-up de nutrientes:

O cansaço persistente pode ser deficiência de ferro ou vitamina D. Consulte um médico e realize os exames necessários para descartar anemias ou alterações na tireoide, por exemplo.

4. A técnica do “deep work”:

Pare de tentar ser multitarefa. Foque em uma única atividade por blocos de tempo, sem ser perturbado por outros estímulos, e faça pausas reais. Isso evita o esgotamento mental.

5. Detox digital:

Reserve períodos do dia (como as refeições) para ficar longe do celular. O excesso de notificações mantém o cérebro em estado de alerta constante, impedindo o relaxamento.

6. Hobbies “inúteis”:

Escolha uma atividade de que você gosta, mas que não tenha qualquer objetivo de performance. Pode ser ler, cuidar de plantas, tocar um instrumento, montar quebra-cabeças, cozinhar.

7. Hidratação constante:

A desidratação leve também é causa de fadiga e falta de concentração. Mantenha uma garrafa de água sempre à vista.

8. Aprenda a dizer “não”:

O cansaço vem também de aceitar compromissos sociais e profissionais em excesso. Estabeleça limites claros para proteger sua energia emocional.

9. Práticas de mindfulness:

Técnicas de respiração ou meditação guiada – disponíveis inclusive em aplicativos como Insight Timer, Calm e Meditopia – ajudam a baixar os níveis de cortisol.

10. Pausas ativas x pausas passivas:

Em vez de descansar olhando o Instagram, o WhatsApp ou o Tik Tok (pausa passiva que cansa a vista), faça uma pausa ativa: alongue-se, tome um copo de água ou olhe pela janela para relaxar o foco visual.

Difícil fazer tudo ao mesmo tempo? Escolha uma das estratégias e comece! A cada etapa consolidada, siga em frente para a próxima até conseguir as dez. O resultado, com certeza, vai valer a pena: seu corpo e sua mente lhe dirão!

 
março de 2026